O maior alvo da indústria do tabaco tem nome, idade e futuro
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, vale destacar um alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS): a indústria do tabaco e da nicotina continua desenvolvendo produtos cada vez mais sofisticados para prender crianças e adolescentes em um ciclo de dependência.
A boa notícia é que esse ciclo pode ser interrompido. Mas, para isso, é preciso informação, políticas públicas consistentes e o compromisso de toda a sociedade.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo a OMS, cerca de 15 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos já utilizam cigarros eletrônicos no mundo. Outros 40 milhões fazem uso de produtos derivados do tabaco. Nos países onde existem dados disponíveis, os adolescentes têm, em média, nove vezes mais probabilidade de consumir vape do que os adultos.
Não se trata de uma coincidência. Os cigarros eletrônicos foram desenhados para serem atraentes aos olhos dos jovens. Sabores adocicados, embalagens coloridas, design tecnológico, forte presença nas redes sociais e o uso de nicotina sintética fazem parte de uma estratégia cuidadosamente planejada para criar novos consumidores e mantê-los dependentes por muitos anos.
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Por isso, a OMS reforça a necessidade de expor essas estratégias e fortalecer medidas capazes de proteger a população. Entre elas estão a proibição de sabores que mascaram o gosto da nicotina, a restrição da publicidade e da promoção dos produtos, especialmente no ambiente digital, embalagens padronizadas, regulamentação mais rígida sobre o design dos dispositivos, manutenção de ambientes livres de tabaco e nicotina, aumento da tributação e ampliação do acesso ao tratamento para quem deseja abandonar o vício.
O Brasil como referência internacional
Nesse cenário, o Brasil merece reconhecimento internacional. Desde 2009, a Anvisa proíbe a comercialização, importação e propaganda de cigarros eletrônicos. A medida foi reafirmada em 2024, após ampla análise das evidências científicas disponíveis.
Enquanto diversos países permitiram inicialmente a venda desses dispositivos e agora revisam ou endurecem suas regras diante do crescimento da dependência entre adolescentes, o Brasil adotou uma postura preventiva baseada na proteção da saúde pública.
A experiência internacional reforça esse caminho. Países como Austrália, Canadá, e Nova Zelândia, frequentemente citados como exemplos de regulamentação, vêm promovendo restrições cada vez mais rigorosas para reduzir o acesso aos cigarros eletrônicos, especialmente entre os jovens.
O aumento expressivo do consumo nessa faixa etária mostrou que controlar um produto altamente atrativo após sua ampla disseminação é muito mais difícil do que impedir sua consolidação no mercado.
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Como a dependência se espalha
A maioria dos adolescentes não compra seu primeiro vape em lojas físicas ou virtuais. Estudos mostram que aproximadamente 70% dos jovens obtêm o dispositivo por meio de um irmão, amigo ou colega.
É assim que a dependência se espalha: de mão em mão, entre pessoas de confiança. Romper essa corrente talvez seja uma das medidas mais eficazes para impedir que novos adolescentes iniciem o consumo. Não compartilhar, não presentear e não normalizar o uso são atitudes que salvam vidas.
Os riscos para a saúde cardiovascular
Muitas pessoas ainda acreditam que o cigarro eletrônico produz apenas vapor e seria menos nocivo do que o cigarro convencional. Essa percepção é equivocada. O vape também expõe o organismo à nicotina, uma das substâncias que mais causam dependência.
Ela provoca aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, maior liberação de adrenalina, disfunção da parede dos vasos sanguíneos e favorece processos inflamatórios que aceleram a formação de placas de gordura nas artérias.
Esses efeitos aumentam significativamente o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias e outras doenças cardiovasculares. Em adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, a nicotina também interfere nos mecanismos relacionados à atenção, memória, aprendizado e controle dos impulsos, tornando a dependência ainda mais intensa e precoce.
O Dia Nacional de Combate ao Fumo é um convite para lembrarmos que a prevenção continua sendo a estratégia mais eficiente e a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) promoveu uma campanha ao longo de todo o mês de agosto com postagens em mídias sociais, conteúdos em seu site e exibição de entrevistas e podcasts.
Proteger crianças e adolescentes da dependência da nicotina significa preservar sua saúde cardiovascular, respiratória e mental por toda a vida.
*Jaqueline Scholz, assessora científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e especialista em tratamento do tabagismo
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